
Vivemos cercados por promessas de bem-estar. Aplicativos de meditação, cursos de desenvolvimento pessoal, frases motivacionais, calendários de gratidão: tudo aponta na mesma direção, a de uma vida cada vez mais confortável, positiva e livre de sofrimento. O filósofo sul-coreano radicado na Alemanha Byung-Chul Han deu um nome a esse fenômeno em seu livro Sociedade Paliativa: a dor hoje (2021): vivemos numa espécie de UTI cultural, onde tudo o que causa desconforto é rapidamente sedado, evitado ou embrulhado em uma narrativa positiva.
A dor como falha a ser corrigida
Han chama isso de algofobia — um medo generalizado da dor que se estende muito além do corpo. Ela aparece na forma como evitamos conversas difíceis, como preferimos consensos confortáveis a debates reais, como tratamos qualquer tristeza como sintoma a ser tratado o quanto antes. A dor, segundo o autor, deixou de ser vista como parte legítima da experiência humana e passou a ser tratada como uma falha do sistema, algo a ser corrigido, silenciado ou medicado.
Os limites da psicologia positiva
Um dos pontos mais interessantes do livro é a crítica que Han faz à psicologia positiva. Não se trata de negar o valor de cultivar otimismo ou gratidão, mas de observar o que acontece quando toda a cultura psicológica se volta exclusivamente para isso: pensamentos negativos passam a ser vistos como erro, e a própria dor emocional é lida como uma questão a ser resolvida rapidamente, de preferência sozinha, através de mais uma técnica de autoajuda. O sofrimento, que poderia apontar para questões sociais mais amplas, precariedade, isolamento, excesso de cobrança, acaba sendo reduzido a um problema estritamente individual. Cada pessoa é convocada a cuidar da própria “alma”, enquanto as condições reais que produzem esse sofrimento raramente entram em discussão.
O “like” como analgésico do presente
Outro conceito central do livro é o que Han chama de “sociedade do curtir”. Vivemos numa cultura em que tudo precisa ser agradável, consumível e fácil de aprovar, da arte às relações pessoais. O “like” se torna, segundo o autor, o analgésico simbólico do presente: uma forma de tornar tudo mais liso, mais palatável, menos capaz de incomodar. O problema é que aquilo que nunca incomoda também dificilmente transforma. Han lembra que a arte, historicamente, sempre teve a função de causar estranhamento, de tirar as pessoas do lugar-comum, e é justamente essa capacidade de perturbar que vai sendo perdida quando tudo precisa ser instantaneamente agradável.
Dor como forma de vínculo
Essa reflexão ganha um contorno ainda mais interessante quando se olha para as relações afetivas. Para Han, a dor também é uma forma de vínculo: dói aquilo com que nos importamos de verdade. Evitar sistematicamente qualquer desconforto emocional, portanto, pode significar também evitar profundidade, no amor, na amizade, na vida em comunidade. Relações inteiramente confortáveis, sem atrito algum, correm o risco de serem também relações mais rasas.
Regular não é suprimir
Isso não significa, é claro, romantizar o sofrimento ou sugerir que dor é sinônimo de crescimento automático. A crítica de Han não é contra o alívio legítimo do sofrimento, é contra a ideia de que toda forma de desconforto deveria ser eliminada o mais rápido possível, sem espaço para ser sentida, compreendida ou até mesmo comunicada. Quando isso acontece, perde-se também a possibilidade de a dor apontar para algo importante: uma injustiça, uma perda que precisa ser processada, um limite que está sendo ultrapassado.
Do ponto de vista psicológico, essa reflexão dialoga com algo que já é bastante discutido na clínica: a diferença entre regular uma emoção e simplesmente suprimi-la. Regular não significa apagar o desconforto, mas conseguir atravessá-lo sem ser dominado por ele. Uma cultura que trata qualquer tristeza como algo a ser eliminado imediatamente pode, sem perceber, ensinar as pessoas a suprimir, em vez de processar, o que, no longo prazo, tende a ter o efeito oposto ao bem-estar prometido.
O que fica no final
A provocação central de Han, no fim das contas, não é contra o desejo legítimo de sofrer menos. É um convite a desconfiar de uma cultura que promete uma vida totalmente livre de desconforto, como se isso fosse desejável, ou mesmo possível. Reconhecer espaço para a dor, dentro de limites saudáveis, pode ser exatamente o que falta para recuperar profundidade em uma vida cada vez mais anestesiada por conforto e positividade forçada.
E você, percebe algum reflexo dessa “sociedade paliativa” na sua própria rotina, seja evitando conversas difíceis, seja tentando transformar toda tristeza em positividade forçada? Deixe seu comentário abaixo e compartilhe esse texto com alguém que também precisa repensar sua relação com o desconforto.
