A nova onda do TDAH em adultos: Por que todo mundo parece estar descobrindo que tem TDAH na vida adulta? 

Um adulto pode “desenvolver” TDAH do nada? 

De repente, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade deixou de ser assunto de criança agitada na sala de aula e virou tema de conversa entre adultos.  O TDAH é classificado como uma condição do neurodesenvolvimento, ou seja, algo ligado ao modo como o cérebro se formou desde cedo, com forte participação genética e influência do ambiente. Por isso, os manuais de diagnóstico exigem que pelo menos alguns sinais já estivessem presentes antes dos 12 anos de idade. 

Ou seja: não existe uma epidemia de adultos “pegando” TDAH atualmente. O que existe é um número muito maior de pessoas que conviveram a vida inteira com essas dificuldades sem nunca terem recebido um nome para elas. Durante a avaliação, é comum que o profissional converse com pais, irmãos ou pessoas próximas justamente para reconstruir essa história de infância. 

Então, o que mudou? 

Os critérios ficaram mais amplos. Em 2013, o manual diagnóstico mais usado no mundo flexibilizou algumas exigências: aumentou a idade limite para o surgimento dos primeiros sinais, reduziu o número de sintomas necessários para adultos e passou a reconhecer diferentes formas de apresentação — inclusive aquela sem agitação visível, marcada principalmente pela desatenção. 

Por décadas, a imagem do TDAH foi a do menino inquieto que não para na cadeira. Quem não se encaixava nesse molde, especialmente meninas e pessoas com sintomas mais internos, simplesmente passava despercebido.  

A pandemia bagunçou as estruturas. Muita gente se sustentava na rotina do escritório, nos horários fixos, na presença dos colegas. Quando esses apoios sumiram, dificuldades que estavam camufladas ficaram evidentes. Pesquisas apontam aumento de sintomas de desatenção no mundo todo nesse período. As redes sociais abriram a conversa. Aqui há um lado bom e um lado delicado: por um lado, milhões de pessoas se sentiram menos sozinhas e mais compreendidas; por outro, listas de sintomas “secretos” criadas coletivamente na internet nem sempre correspondem ao que a ciência descreve. 

Uma das portas de entrada mais comuns é o adulto que acompanha a avaliação da criança e percebe, ali, a própria história. Faz sentido: o componente hereditário é significativo. 

O acesso ficou mais fácil — para o bem e para o mal. Atendimentos on-line derrubaram barreiras reais de custo e distância. Ao mesmo tempo, avaliações rápidas demais aumentam o risco de conclusões apressadas. 

TDAH não é um botão de liga e desliga 

Talvez o ponto mais importante para quem lê sobre o assunto pela primeira vez: dificuldade de atenção, desorganização e inquietação não são características que a pessoa “tem” ou “não tem”. Elas existem em graus, distribuídas em toda a população. Todo mundo tem, o que muda é o quanto. 

O diagnóstico entra em cena quando esses traços são intensos, persistentes e atrapalham de verdade a vida da pessoa: trabalho, estudos, relacionamentos, autoestima. Um adulto reconhece dois ou três desses comportamentos em si mesmo – e isso, por si só, não significa nada clinicamente. 

Também há evidências de que os sintomas oscilam ao longo da vida. Fases de maior exigência, estresse ou mudança de rotina podem intensificar o quadro, enquanto períodos mais estáveis podem suavizá-lo. Isso ajuda a explicar por que alguém que “se virava bem” aos 25 anos pode entrar em colapso aos 40. 

Superdiagnóstico ou subdiagnóstico? 

A resposta mais provável é que seja os dois, ao mesmo tempo. Dificuldade de concentração é um dos sintomas mais inespecíficos que encontramos – ele aparece em quadros de ansiedade, depressão, privação de sono, estresse prolongado, alterações hormonais e efeitos colaterais de medicamentos. Descartar essas possibilidades é a parte mais trabalhosa e mais importante de uma avaliação bem feita, e é justamente ela que se perde quando o processo é acelerado. 

Por outro lado, para cada diagnóstico dado sem critério, existe provavelmente outro que foi perdido. Muitos adultos chegam à terapia por ansiedade, depressão ou uso de substâncias, e o TDAH por trás de tudo isso nunca é identificado. 

Autodiagnóstico 

Reconhecer-se em um vídeo ou em um texto pode ser um começo válido, mas é só isso, um começo. Autodiagnóstico não substitui avaliação profissional, e o caminho mais seguro é procurar um psicólogo para uma investigação cuidadosa, que leve em conta sua história desde a infância, o impacto real no seu dia a dia e outras explicações possíveis. 

Vale lembrar que um diagnóstico não é um rótulo nem uma sentença. Para muita gente, ele funciona como uma chave de leitura: permite parar de interpretar dificuldades antigas como preguiça ou falta de força de vontade e começar a lidar com elas de forma prática, com estratégias, apoio terapêutico e, quando indicado, tratamento medicamentoso. 

A “nova onda” do TDAH em adultos, no fim das contas, diz menos sobre uma epidemia e mais sobre um campo que está aprendendo a enxergar melhor. E isso significa que mais pessoas conseguem chegar ao cuidado de que precisavam há anos. 

E você? Sentiu que os seus níveis de desorganização ou inquietação mudaram nos últimos anos ou se identificou com essa ‘nova onda’ de diagnósticos? Vamos deixar algumas dicas de artigos interessantes sobre esse assunto que podem te ajudar nessa jornada! 

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